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De WikiMediation

[editar] A mediação de conflitos como processo de transformação relacional e social

  • A riqueza da vida, o que caracteriza o fluir do quotidiano não são nem as grandes alegrias, nem as grandes tristezas, nem esses momentos mais relevantes que vão encandeando o passar dos anos.

Uma existência é feita do tecer desses vínculos relacionais com os outros que transformam, qualificam de forma positiva ou negativa a gestão das pequenas coisas que pontuam as horas que passam e que por vezes até criam nós emaranhados no fluir do tempo que se torna doentio insustentável.

A família, a escola, o trabalho são esses espaços afectivos, sociais e jurídicos em que as transformações relacionais se atropelam, tendo deixado de ser espaços definidos e consistentes para lugares de incertezas que a própria esfera jurídica tem dificuldades em acompanhar (por exemplo na família, ainda não se encontra enquadrado o papel de madrasta/padrasto embora com uma das maior taxas de divorcialidade da União Europeia, se multiplicam na esfera da realidade das famílias portuguesas).

É doravante nessa teia relacional em transformação, na procura desajeitada de relações mais igualitárias e participativas que brotam os sentimentos de pertença, os valores, crenças, e tradições que sustentam a construção identitária. Nessas mutações rápidas é por vezes difícil a definição da relação a nós próprio de daí também ao outro, é penoso situar-se em termos relacionais, fazendo do quotidiano um campo de batalha em que esgrimir argumentos, ataques e posições é encarado como a única solução possível para preservar um processo de individuação espartilhado entre exigências contraditórias e desorganizadoras.

A importância da mediação não se enquadra somente enquanto processo de intervenção no âmbito da resolução alternativa de litígios num quadro extra-judicial. O desafio da mediação enquadra-se na mobilização para uma aprendizagem ao nível colectivo porque na procura de uma dinâmica mediadora, a componente relacional é mais importante que a componente resolutiva e material. Porém a dimensão da Mediação na sua modalidade de intervenção preventiva e colaborativa tem sido pouco valorizada inclusive pelos mediadores.

Ora a função primeira da mediação é atribuir à palavra um lugar peculiar : o lugar do reconhecimento num um quadro estruturado onde pode ser expressa de forma responsável a conflitualidade, possivelmente elaborar de forma construtiva uma solução.
Para transformar é necessário elaborar, pensar as dificuldades relacionais, daí a importância da dimensão de pedagogia da relação e da comunicação. Como acreditar mais no diálogo do que na violência, como perceber que as nossas leituras da realidade são apenas as nossas leituras (Aquele meu vizinho puxará intencionalmente a água da sanita todos os dias às 3 h da manhã só para me chatear?!.) Para transformar uma micro-cultura num processo de aprendizagem colectivo é necessário que uma sociedade privilegie o diálogo e a comunicação de qualidade invés violência, do aviltamento, da competição. Os próprios profissionais da mediação têm trabalhado pouco nesse sentido e quando o fazem é numa vertente de voluntariado benevolente e evangelizador, na continuidade do ideal judaico-cristã da fraternidade humana.

Mas na realidade, fala-se mais de mediação do que se faz mediação porque a mediação desenvolveu-se essencialmente ao nível de um negócio paralelo da formação, surgindo conferências em que a palavra mediação é associada a tudo e mais alguma coisa (família, emoções, intercultura, sexualidade, trabalho, toxicodependência, vítima, pessoas idosa, suicídio….

Há muitos mediadores, demasiadas formações mas pouca preocupação por parte dos mediadores e entidades públicas em trabalhar com a sociedade civil no sentido de desenvolver a mediação.
Falar de mediação é falar de um axioma em que qualquer pessoa é responsável das suas acções e deve encontrar as soluções para os seus conflitos relacionais responsabilidade do mediador através da forma como gere o processo de mediação, mediação como acto de reconhecimento O filosofo Jean DE MUNCK, analisa a função da mediação enquanto acto político que participa na construção autêntica da cidadania. Poucos mediadores analisam os seus contributos nesse sentido por medo de contribuir a uma nova forma de controle social que poderia dar à mediação uma função normativa, mas será que não têm uma função normativa quando trabalham como auxiliares o sistema judicial assente também no paradigma do controle social. Bonafé-Schmitt reiterou pelo contrário na conferência [1] que a Associação realizou no dia 30 de Abril de 2011 em Aveiro em parceria com a Escola Profissional de Aveiroque a mediação é uma contra-cultura ao participar na construção do exercício individual e responsável da cidadania que no sistema escolar se coloca como contrapoder à tendência a hiper-regulamentação baseada em conteúdos disciplinares em detrimento da dimensão pedagógica a responsabilização e a gestão construtiva de conflitos.
A introdução da mediação na escola é promover:

1. a estruturação da consciência cívica;
2. o desenvolvimento do pensamento crítico, autónomo e criativo;
3. a aprendizagem da importância de ouvir os outros;
4. a comunicação e a interacção responsável;
5. a procura criativa de soluções construtivas.
À mediação e a pedagogia intervêm em volta do eixo da comunicação para além das relações de autoridade e poderes instituídos.

A mediação no espaço escolar contribui sem dúvidas na estruturação de vínculos relacionais que promovem o sujeito enquanto actor responsável e participativo do seu processo de crescimento individual e colectivo.Predefinição:Aveiro 2011
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